Postado em 09 de Março de 2018 às 15h32

Força feminina: conheça a história da dona Aparecida

Cleiton Fossá | Vereador Chapecó – Lá estava ela, em frente à casa vermelha com a cuia na mão. Lá estava ela, sentada na cadeira de balanço, ao lado das flores brancas. Lá estava ela......

Chapecó – Lá estava ela, em frente à casa vermelha com a cuia na mão. Lá estava ela, sentada na cadeira de balanço, ao lado das flores brancas. Lá estava ela... dona Aparecida Ignácia Siqueira suavemente puxou o canto da boca e sorriu. Lá estava ela, pronta para contar sua história.

— Pode entrar — Gritou a dona Aparecida.

Sua mãe, dona Otília de 86 anos, levantou-se do sofá e veio ao meu encontro. Abriu o portão e, em seguida, puxou um banco. Ansiosa, Aparecida batia rapidamente os dedos no braço da cadeira. Olhou fixamente para o céu, como se resgatasse suas memórias e iniciou sua história. 

Nega, assim como é chamada, é natural de Erechim e veio para Chapecó ainda quando tinha 3 anos de idade. Ela lembra que morava na linha Faxinal dos Rosas com sua mãe e seu pai, seu Procedino. Dona Aparecida (51 anos) passou por dificuldades ainda quando era criança. Ela e os seis irmãos ajudavam a mãe a vender milho, para que tivessem dinheiro para comprar outros alimentos.

Na escola havia apenas uma sala e uma única professora compartilhava o seu conhecimento com duas turmas que estudavam no mesmo horário. Os materiais não eram baratos, ela e os irmãos iam para a aula em horários diferentes e, quando o ensinamento chegava ao fim, o lápis e a borracha eram partilhados entre eles. O pé de umbu, no trajeto de casa para a aula, garantia o lanche das crianças.

Aparecida, quando adulta, iniciou o trabalho de doméstica. Mãe das três mulheres, Iara (19 anos), Jucenita (19 anos) e Juceleia (15 anos), enfrentou vários obstáculos para cuidar da filha mais nova, Juceleia. A menina tinha problema nos rins e no coração. Aparecida estava no trabalho quando recebeu a ligação de uma vizinha. As notícias não eram boas, pois sua filha tinha desmaiado. O motivo? Um ataque cardíaco. Para levar a filha ao hospital, Aparecida terminou de limpar a sala rapidamente. Entretanto, a patroa negou o pedido de liberação.

— Você só sai daqui quando terminar de limpar a cozinha — disse a patroa.

Sem negar a ordem de sua chefe, Aparecida entrou em contato com a vizinha e pediu para que levassem a Juceleia para o hospital. A mulher, de personalidade forte, terminou de limpar a cozinha, como foi orientado a ela.

— Aparecida, até amanhã.

— Amanhã só volto para acertar minhas contas.

— Não Aparecida, não me deixe na mão.

— Patroa, foi o que a senhora fez comigo hoje.

Insatisfeita, ela realmente pediu demissão. Percebeu também que o salário do trabalho de doméstica não estava sendo o suficiente. Portanto, passou a trabalhar com a reciclagem.
No ano de 2008, Aparecida lembra que foi trocar sua camiseta e, foi nesse momento que sem querer passou a mão em cima do seio esquerdo. "Senti uma bolinha", frisou durante a entrevista e levou a mão ao peito novamente. Após perceber que menstruava com frequência, ela procurou uma ginecologista. A doutora indicou uns remédios para regular a menstruação. Entretanto, Aparecida voltou ao consultório. A razão? Aquela bolinha, que parecia comum, começou a provocar dor. "A Doutora era alta. Ela tinha os dedos longos, frios e secos. Começou apalpar meu seio, senti muita dor". 

— Você demorou demais — disse a médica.

— Demorei pra quê?

— Dona Aparecida, precisamos fazer alguns exames.

Aparecida ligou para a Clínica da Mulher para marcar os exames. Porém, a moça do telefone disse que não tinha mais como agendar consultas durante aquele mês. Preocupada com a situação de sua paciente, a médica ligou para o secretário da saúde. A consulta, enfim, foi marcada. Numa terça-feira os exames foram realizados. O resultado da biópsia saiu em menos de 10 dias.  "Quando fui buscar o resultado estava frio e chovendo muito":

— A senhora tem bastante fé, dona Aparecida? — perguntou o Doutor.

— "IIIIIh", lá vem bomba. O que eu tenho?

— A senhora está com câncer, o tumor é maligno. Precisa fazer cirurgia, precisa tirar tudo, ao contrário nem adianta.

Aparecida saiu do consultório tranquila, mas ciente da gravidade do problema. “Saí de lá com Deus. Pensei que se fosse pra eu fazer cirurgia, o cara lá do céu ia ajudar. Eu sabia que 50% de chances que havia de dar certo a cirurgia dependia do médico. Os outros 50% dependia da minha força”.

Certa manhã Aparecida foi encontrar as crianças. A filha da cozinheira da escola percebeu que a mulher não passava bem e, de imediato a levou para o hospital. Logo, marcaram a cirurgia.

Uma quinta-feira de muita espera e fome. Ela precisava estar em jejum. “Comi um pãozinho, tomei 1 copo de sopa e uma xícara de café. Foram as últimas coisas que coloquei na boca antes da cirurgia, nem água eu podia tomar. Fiz a cirurgia às 15 horas e 15 minutos de sexta, só vi duas mãos puxando um lençol até cobrir minha cabeça, daí a noite já acordei na sala de recuperação. A enfermeira pediu se eu sentia dor, claro que eu sentia, mas falei que não. Visto que ela já tinha dado anestesia, não tinha o que fazer mais, então não tinha motivos para eu incomodá-la. Só saí do hospital no sábado às 19 horas”.

Foram 16 dias com o dreno, 6 quimioterapias e 28 radioterapias. Aparecida colocou as mãos nas costas ao recordar o tamanho do seu cabelo. Ela apontou para dentro da casa, arregalou os olhos e comentou "Eu não podia chegar perto das panelas, qualquer ventinho fazia meu cabelo cair. Cansei de sofrer com isso, então fui ao cabelereiro e raspei tudo de uma vez".

Entre uma conversa e outra, ela citou várias vezes que sofreu preconceito. A primeira situação dentro da sua própria casa. O ex-marido começou a chamá-la de aleijada. Após realizar a cirurgia, Aparecida não quis por prótese. Ela abriu os braços para mostrar como outra mulher apareceu no médico nos dias que ela foi fazer tratamento. "Ela disse que colocou a prótese de silicone, mas deu rejeição. Percebi o desespero daquela mulher, ela caminhava dura para conseguir manter os braços abertos sem movimentar. Pensei 'eu não quero isso pra mim', então não coloquei. No tempo, meu marido achava um defeito, vivia me arrumando apelidos. Pedi a separação, eu não precisava dele pra me sustentar, eu estava com saúde, não precisava ter seio pra me sentir bem".

A segunda situação de preconceito se deu devido a sua profissão. "Eu trabalho com reciclagem, minha família come bem. Pra mim, isso é o que importa. Não precisamos viver com luxo, só precisamos viver bem. Mas, por causa disso, eu tive que ir até a escola. Minha filha não aguentava mais ouvir os coleguinhas me chamando de "lixeira" e outros apelidos bem piores. Até que um dia a diretora me chamou, disse que a Ju surrou uma colega. Compreendi a dor que a minha filha sentia, ela nunca teve vergonha do que eu faço. Expliquei pra ela que as pessoas estavam sendo agressivas com as palavras que nos descreviam, mas não era retribuindo a violência que as coisas iriam se resolver". Aparecida soube administrar o problema. A filha mais nova compreendeu que conversar com a própria mãe, a diretora ou professora da escola resultaria realmente numa solução e não outro problema.

Diz o ditado que “coração de mãe sempre cabe mais um”. Cabe e como cabe. Uma das meninas é filha de criação. Iara é filha da irmã da Aparecida. Porém, de tia a mulher não tem nada. Ela é mãe! A menina confirma isso, pois sempre viveu com Aparecida. Seu sobrenome que era “da Silva” passou a ser “Siqueira Carvalho”. Às 19 h Iara resolveu sair com o namorado, ao se despedir frisou palavra por palavra “Tchau mãe, Deus abençoe”.

Claudete faleceu há quatro anos. Logo, o Anderson, filho mais novo de Claudete, que por sangue é irmão da Iara, também foi morar com Aparecida. “A perda da minha mãe é recente, mas considero a Aparecida como uma segunda mãe. Morar com os meus outros irmãos não deu muito certo, preferi ficar com ela”.

A luta da Aparecida Ignácia Siqueira é constante. Início de 2018 ela tirou a clavícula do lugar e, o único sentimento dela é de angústia, pois ela quer voltar logo ao seu trabalho. O médico pediu para que ficasse 3 meses sem trabalhar para depois fazer a fisioterapia. Entretanto, aos poucos ela movimenta o braço. “Minha fisioterapia é dentro de casa, volto a trabalhar antes de terminar o prazo de três meses, tenho certeza”. Outra vez olhou para o céu e sorriu. Após cinco minutos de silêncio, ela fomentou:

“Somos uma lâmpada. Se queimar não tem mais conserto. Tive muitas experiências. Os problemas não vêm para desanimar, mas para ter mais fé. Fé em nós mesmos, fé em Deus”.

Nosso mandato considera que a história da Aparecida é uma, entre tantas, que serve de exemplo da importância de consultar um médico, principalmente quando a mulher percebe mudanças no corpo. Apalpar o seio todos os dias contribui para que a mulher conheça o seu corpo e perceba as alterações. A menstruação desregulada pode ser também um sinal de que está na hora de procurar um especialista. Nem sempre esses sintomas significam que a pessoa desenvolveu o câncer, mas são indicações importantes que podem ajudar no diagnóstico.

Além disso, humilhação, manipulação e calúnia são consideradas violência psicológica e moral. Incentivamos que as mulheres denunciem estes casos de agressão e, assim como a dona Aparecida, não se permitam passar por essa situação. Ligue no 180, ou entre em contato com a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso por meio do (49) 2049-7874.

 

Alessandra Favretto, Assessoria de Comunicação Cleiton Fossá

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